Sobre alimentação

A Disciplina Positiva explica que existem três áreas em que a criança tem total controle sobre o processo: comer, dormir e fazer xixi/coco. Quando uma ou mais dessas três áreas se tornam uma grande questão dentro da família, pode ser válido avaliar se não estamos em uma disputa de poder com a criança.

O que significa dizer que a criança tem total controle sobre o processo? Podemos cozinhar, tentar brincadeiras, manipular, usar castigo/recompensa, podemos até colocar comida à força dentro da boca da criança, mas não temos como fazer a criança mastigar e/ou engolir. Isso não significa que por estar no controle dela, ela terá o poder e direito de decidir o que comer e quando comer, já que ainda é pequena e não possui maturidade e conhecimento suficiente para avaliar as consequências no longo prazo de, por exemplo, se alimentar apenas de fast food. Caberá a cada família criar suas regras dentro dos valores em que acredita.

Em áreas em que a criança tem total controle (principalmente quando se trata de crianças pequenas), pode ser mais útil decidir o que VOCÊ, adulto, irá fazer ao invés de tentar decidir o que a CRIANÇA deverá fazer (essa é uma das grandes armadilhas para a disputa de poder: tentar manipular o comportamento do outro, seja o filho, parceiro, amigos, estranhos na rua). Pode ser muito frustrante e desesperador viver tentando decidir sobre o comportamento dos outros, sobre o que eles deveriam fazer, como deveriam se sentir ou pensar (acreditem, eu já vivi muito assim).

Hoje temos muitas leituras, documentários e reportagens sobre a importância de uma boa alimentação e pode ser muito preocupante quando as crianças não comem. Muitas vezes, quando os pais dizem “meu filho não come”, é mais provável que queriam dizer “meu filho não come as coisas que eu gostaria que ele comesse na quantidade que eu acho ideal”, e não necessariamente uma criança que realmente não coma nada.

Se pensarmos nos hábitos alimentares entre os adultos, é natural ouvirmos coisas como “enjoei do tempero desse restaurante”, “estou numa fase em que só quero comer doces/saladas/pães” ou “nossa, experimentei um arroz cremoso de camarão no quituart DELICIOSO e agora só quero comer isso todo dia” ( <– essa sou eu).

Ou que há dias em que sentimos muita fome e comemos muito mais do que achamos apropriado, e dias em que simplesmente comemos pouco e dizemos “estou sem muita fome hoje”.

Talvez a diferença seja a expectativa que criamos em relação à alimentação dos pequenos. Se o seu parceiro ficar uma semana sem comer salada, dificilmente vamos entrar no google e pesquisar “meu marido não quer comer salada e agora?”. Talvez seja interessante mudar o olhar de “a criança entrou numa fase de seletividade” pra “a criança está ganhando autonomia, consciência e experimentando as possibilidades da vida”. Ou, em outras palavras, está começando a agir como todas as outras pessoas, com coisas que gosta, que não gosta, e a possibilidade de mudar de ideia ao longo da vida.

Pode parecer desrespeitoso “deixar a criança com fome”, mas não é nem gentil ou respeitoso passar a refeição toda disparando perguntas e súplicas “come só mais um pouquinho, vai! só mais uma colherzinha! eu fiz com tanto carinho.. é bom pra você. Então escolhe entre cenoura e brócolis, pelo menos um deles você precisa comer”. Alguém agiria assim com um convidado adulto que viesse jantar na sua casa? “Poxa, mas você comeu tão pouco.. e nem encostou na salada! Come mais um pouco, vai! Quer que eu faça uma omelete? um copo de leite? Assim você vai ficar com fome de madrugada.. se você comer eu deixo você conhecer a vista da sacada, que tal?”.

Mais importante que a ferramenta da DP, é entender o princípio que está por trás da ferramenta. Tudo tem uma essência e as crianças são melhores que nós em perceber a real essência das coisas. Se a criança se recusar a comer, podemos dizer “tudo bem, não precisa comer” e retirar o prato a partir de uma essência autoritária em que nossa intenção é “mocinho, nessa casa as regras são minhas, se não quer comer, então vai passar fome pra você aprender quem manda aqui”. Ou podemos retirar o prato a partir de uma essência de chantagem “não quer comer, tudo bem.. mas depois se você ficar com fome não vou dar, viu? tem certeza? vai passar fome, é isso que você quer?” (e, normalmente, quando estamos chantageando, é muito comum cedermos quando a criança chora e pede outras comidas, e acabarmos “abrindo exceções”, com a esperança de “só dessa vez, amanhã não vai ter exceção, viu?”). Ou podemos retirar o prato a partir de uma essência de respeito pela criança “tudo bem se você não quiser comer, confio na sua capacidade de lidar com as consequências das suas escolhas” e permitir que ela faça o que todos nós fazemos de vez em quando “hoje não quero cenoura” sem grandes repercussões.

Algumas coisas que podem ajudar a acabar com as disputas de poder é focar em decidir o que está dentro do se poder de decisão: oferecer um cardápio rico em nutrientes e saudável, com opções para todos os membros da família. E estar disposta a aceitar que tudo bem se nem todo mundo comer de tudo. Faça combinados, estabeleça regras e avise com antecedência sobre os horários em que as refeições serão servidas. Como também foi mencionado, os adultos também tem direitos iguais ao respeito. A criança pode não querer comer, mas não é respeitoso reclamar da comida, ou querer fazer pedidos como se estivesse em um restaurante para ser servido 24 horas por dia (as necessidades de todos, adultos e crianças, precisam ser consideradas).

Ao invés de focar no que está no prato dos seus filhos ou quanto eles estão comendo, que tal ajustar as expectativas e tornar a hora das refeições um momento de encontro emocional e espiritual da família, em que conversamos sobre como foi nosso dia, os planos pro final de semana, compartilhar as coisas boas, tiramos o olho do prato dos pequenos pra olhar dentro da bolinha dos olhos deles e ouvir o que eles tem a nos contar, criando um momento de conexão da família? Gosto muito da Fabíola Duarte que diz que o momento de comer é um momento em que comemos não só o alimento, mas comemos o mundo. Afinal, os anos passam rápido demais e, um dia, quando nossos filhos se tornarem adultos, talvez as conversas e trocas ao pé da mesa sejam muito mais valiosas e importantes para a saúde física, mental e emocional deles que a quantidade de brócolis que eles comeram ao longo da vida.

Convide seu filho para cozinhar com você (mesmo que sua cozinha fique toda bagunçada, lembre-se bagunça pode ser sinal de uma casa com vida e que sempre podemos pedir a ajuda deles para limpar a cozinha depois), prepare os alimentos com amor, peça ajuda do seu filho para servir os pratos, colocar os guardanapos, encher os copos de suco (as crianças AMAM ajudar e se sentem aceitos e importantes dentro da família), permita que ele se sirva escolhendo o que quer comer, na quantidade que ele quiser (e confie nele), conversem coisas leves e divertidas. Comer é socializar, comer pode ser bom demais!

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