Sobre maternidade, palpites e crianças pequenas.

Por Michelli Lorenzi

“É preciso coragem para criar uma criança; e é preciso coragem para ser uma criança” (trecho do livro “Disciplina Positiva para crianças de 0 a 3 anos”, editora Manole).

Logo que nosso primeiro filho nasce, vivemos os dias mais emocionantes de nossas vidas – em todos os sentidos. Podemos nos sentir atrapalhadas, desajeitadas, inseguras. E amamentar? Uau, não importa quantas vezes tenhamos visto uma mãe amamentar, é tão novo, diferente e pode ser tão mais difícil do que aparenta, não é mesmo? É muito desafiador, e exige uma boa dose de coragem para fazer algo pela PRIMEIRA VEZ em nossas vidas, seja amamentar, dar o primeiro banho, vestir a primeira roupa.

Então, as pessoas ao nosso redor, e até estranhos, na melhor das intenções, começam a nos bombardear (ou somos nós, na exaustão típica da maternidade, que nos sentimos assim) com os temidos palpites. “Faça assim”, “Não faça assim”, “Isso não vai dar certo”, “Não é assim que se faz”, as vezes chegam a tirar o bebê dos nossos braços dizendo “deixa que eu faço pra você”. Daí podemos nos sentir inadequadas, a pior mãe do mundo, desqualificadas. Podemos pensar “o mundo está me julgando”. Sentimos frustração, ressentimento, as vezes ate raiva. Mesmo que as pessoas tenham vindo a nós com a intenção de ajudar, podemos sentir que não nos acham capazes de cuidar do nosso filho.

Talvez, o que mais precisamos quando estamos tão vulneráveis, sensíveis e tentando nos descobrir como mãe/pai, e tentando descobrir quem é nosso filho/filha, o que dá certo, o que não dá, seja receber encorajamento. Alguém que nos permita cometer erros – porque, com certeza, cometeremos- e, ainda assim, nos diga “eu sei como pode ser assustador esses primeiros dias, foi assim comigo também, você está se saindo muito bem”, ou talvez algo como “é difícil fazer tantas coisas pela primeira vez, e eu confio em você” ou até mesmo um sorriso em silêncio, com um olhar que diz “vá em frente, você consegue”.

Daí nossos bebês e nós, pais, sobrevivemos aos primeiros meses e quando nos damos conta, nosso bebê virou uma criança que anda, corre, fala, tem vontade própria. Descobrem um mundo para além do nosso colo e querem testar todos os limites, isso se eles forem crianças saudáveis, bem cuidadas e se desenvolvendo normalmente. Eles, que eram totalmente dependentes de nós, desenvolvem um desejo cada vez maior por autonomia dizendo “faço SOZINHO”, com muita ênfase no SOZINHO. E se você tentar ajudar abrindo a torneira pra lavar as mãos, talvez ele precise fechar a torneira para então poder abri-la de novo, dessa vez, SOZINHO. E como eles são atrapalhados e desajeitados! Como demoram!! E quanta bagunça fazem pela casa!

E então, sem perceber, podemos virar os PALPITEIROS na vida dos nossos filhos. “Faça assim”, “Não faça assim”, “Isso não vai dar certo”, “Não é assim que se faz”, as vezes chegamos a tirar as coisas das mãos deles dizendo “deixa que eu faço para você”. São nossos filhos, é claro que os amamos, queremos que cresçam felizes, confiantes, queremos poupar das frustrações, ajudar, nos sentir úteis, afinal, pode ser doloroso sair do papel principal (pesado, mas gratificante) para papel de coadjuvante na vida dos pequenos. Tão mais fácil e rápido fazer por eles. As crianças pequenas continuarão precisando de ajuda por um tempo ainda, mas talvez seja interessante esperar que peçam pela nossa ajuda para intervir e, antes disso, permitir que cometam erros, tentem quantas vezes forem necessárias, treinem, o cérebro precisa disso para se desenvolver de forma saudável. Ajuda desnecessária prejudica esse desenvolvimento.

Que tal trocar o “não, você ainda é muito pequeno” e “deixa que eu faço, você ainda não dá conta” por “é preciso coragem pra fazer algo pela primeira vez, admiro sua coragem”, “continue tentando, é assim mesmo, nem sempre conseguimos na primeira vez”? Encorajamento é a essência da Disciplina Positiva.

Encorajar é também ser responsável. Crianças pequenas precisam de constante supervisão, treinamento e muita paciência (deles e nossa). Caberá a nós, adultos, a prudência para proteger nossos filhos dos grandes perigos e o bom senso para permitir que se arrisquem nos pequenos perigos inerentes à própria condição de estarmos vivos. Como dizia Rudolf Dreikurs “um joelho ralado pode ser curado, mas a coragem ferida dura a vida toda”.

Nunca é demais repetir “é preciso coragem para criar uma criança; e é preciso coragem para ser uma criança”. Ou como diria Bela Gil “você pode trocar o palpite pelo encorajamento”. Vamos tentar?

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